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18 de julho de 2010

DESGOSTO

E das decepções?
Quais os proveitos que elas trazem-nos?
Força?
Coragem?
Inevitável chorar?
Evitável sorrir?
Desconfiança?
Desilusão?
Anos perdidos?
Anos escondidos?
Coração partido?
Ou corações partidos?
Amizade que rompe-se facilmente?
Vida nova?
Perguntas?
Respostas?
E das decepções?

Edvar Soares.

17 de julho de 2010

SEQUESTRO

          
            Não sabia onde estava, nem o que fazia. Apenas sentia uma dor insuportável e um cheiro fétido de xixi de rato. Escuro. Meu Deus, tira-me daqui! Novamente rolei para o outro lado em busca de uma saída ou mesmo uma ajuda qualquer. Inútil. Uma depressão; girei até lá e fiquei quietinho.
           Fazia muito frio, como se tivessem ligado um ar-condicionado permanente. Não sabia se tremia de frio ou de medo. Passos. Uma luz acende do outro lado de uma porta que antes nem sabia de sua existência. Ouço murmúrios e gritos de êxtase extrema. Por que estou aqui? O que faço aqui? Não consigo mais mover-me, acho que estou sem forças. Ou seria culpa da depressão?
           A fechadura girara vagarosamente na porta. Parecia uma eternidade. Entraram, um por um. E eram muitos, cerca de dez ou onze. Todos estavam com uma espécie de enorme camiseta branca. Seriam anjos que vieram me buscar? Espera, mas eles estão enumerados. Estou confuso. Estou perdido.
           Por que não acenderam a luz? Apenas via um clarão vindo de fora da fria sala.
          Não! Não pode ser... Atiraram ao chão outro igual a mim. Tadinho, a pancada fez com que ele saltasse umas três vezes. E parou. Ouvia gritos, empolgação, mas não conseguia entendê-los. Fui sequestrado por OVNI's? Não suporto mais esse cheiro; agora, misturado a um odor de suor, carniça.
          Uma campainha toca. Todos eles seguiram para o corredor além da porta. Silêncio.
          Fiquei preocupado com o colega que caiu no chão. Ele não se move. Será que desmaiou? Não! Não! Não! Não acredito no que vejo: vários iguais a mim do outro lado da sala. Como eu não havia visto antes? Mas estão bastante quietos. Mortos?
          Segundos depois, volta um dos sequestradores (sequestradores?) Vem em minha direção. O que quer de mim? Por favor, me deixe sair! Ele não me ouve. Continua, agora em passos rápidos, quase correndo, em minha direção. Estende os braços gigantes. O que quer de mim? Ele não me entende. Estou perdido. Chegou a minha hora.


          Correndo, ele carrega-me nos braços. Passamos por um extenso corredor. Infinito. Ouço gritos lá fora. Luzes fortes em minha direção. Mas, o que seria isso? Uma arena? Uma multidão de pessoas olham para mim. Algo dar um assobio prolongado.
          O rapaz que antes me segurava, me joga fortemente nos braços de outro com uma camisa de número zero-quatro. Gritos. Bato no chão com força, rolo para um lado e para o outro. Estava tonto.
          Vários outros com camisas similares, porém vermelhas, tentam agarrar-me. Vão destruir-me. Arremessado ferozmente para cima, vejo pessoas. De um lado, olham para mim com alegria, do outro, olham com espanto, dó. 
          Três segundos depois, uma eternidade para mim. Cesta!
          Um a zero.


OPOSTO (parte 1)

            Tulipas          

          Que merda! Nunca deveria ter agido daquela maneira com a Claudinha. Ela é tão doce, tão meiga. Sempre dava-me bombons quando recebia do namorado. E, mesmo quando tinha apenas um, ela dividia comigo. Agora, esbarro com ela e nem ao menos um sorriso, um olhar pra mim. Poxa, o que custa um sorriso? Mas espero que tudo termine bem. Afinal, toda história tem um final feliz, não é mesmo? (silêncio)



          (...)
          
          Sábado, pela manhã, comi um doce de leite que minha mãe terminara de fazer. Ela falou-me:
          - Menino, coma isso uma hora dessas não! Tá quente! Dá dor de barriga e você vai já almoçar.
          - Ah, mãe... Estou só raspando a panela, não é nada... - repliquei.
          Dito e feito! Duas horas depois, estava com uma imensa dor de barriga.
          - Bem feito! Quer mais doce? - Detesto o tom irônico da minha mãe! - Ei, menino, a Cláudia ligou pra você e disse que passa aqui sete horas com o boy dela. Ela disse que num era pra você se atrasar não. Ave Maria, sei que besteira é essa, passar uma hora arrumando esse pingo de cabelo!
          - Poxa, mãe, eu queria ter falado com ela. Por que não me passou o telefone?
          - Ela tava apressada, muleque. Deixa a menina dos outros em paz! Ou ela tá arrumando uma boyzinha pra você, ein?
          Com uma desgraçada dor de barriga, e ainda ouvir minha mãe encher o saco para que eu arranje uma namorada! Sai irritado da cozinha e corri para o banheiro.
           Após o almoço, deitei na cama e fechei os olhos.
          'Lá voltava ela. Tão lindo aqueles cabelos negros. Macios como uma pluma. Cheirosos como tulipas brancas em detalhes vermelhos. E sua pele? Tão branca que, de longe, via-se a ponta do nariz avermelhada devido ao frio. E corria ao meu encontro. Abraçou-me. Beijou minha face. Claudinha.
          - Carlos?! Por que está me beijando? Sai sai sai...'
          - Menino! Já está pronto? A Claudia tá lá em baixo com o Carlos.
          Sete e dez. De um salto, corri para o chuveiro. Poxa, no instante em que a Claudinha me beija e vejo o Carlos, minha mãe me chama. Bom, pelo menos o Carlos não me beijou. (risos)
          - Só um minuto! - Estava quase totalmente pronto, exceto, o cabelo. Não havendo mais tempo de arrumá-lo, coloquei a boina vermelha (há quem diga que parece com o chapéu do Mário, mas eu gosto porque tem a inicial do meu nome) e um cachecol. Olhei para o espelho: 'Estou lindo!'
          Ao descer as escadas, escuto minha mãe cochichar ao Carlos:
          - ... e tenham cuidado com drogas. Se o Marcelo não tiver camisinha, dá uma pra ele!
          - Vamos, pessoal?! - Cortei a conversa e dirigi-me à porta, antes que minha mãe começasse aquela velha lição de vida 'pré-balada'.
          - Ótima noite, Dona Joana.
          - Falou, tia.

          Frio. Entrei rapidamente no carro. Virei-me para Claudinha:
          - Então, para onde iremos dessa vez?
          - Amor, você sabe chegar no Night Bar? - Ai, como eu detesto quando ela chama o Carlos de 'amor'.
          - Claro! - E lembrei-me do Carlos tentando beijar meu rosto no sonho de hoje. Nojo. 


          - Lotado!
          Ao pegar minha identidade falsa (no Night Bar só entram pessoas a partir de 18 anos), abri a porta para a Claudinha descer do carro, como um exímio cavalheiro, e beijei a mão dela. Tão belo seu sorriso.
          Carlos pegou-a em um dos braços e tocou em meu ombro. Suas mãos são enormes. Fiquei para trás.
          Em direção à entrada do bar, percebi que eles dois não combinam. Cláudia é baixinha, tem traços europeus delicados (seria ela descendente de italianos?). Carlos, por outrlo lado, é alto e forte. Traços robustos de homem da idade da pedra. Cabelos negros, pontudos (deve gastar um litro de gel para o cabelo). Olharam para trás e, em sintonia, gritaram:
          - Não vai entrar, Marcelo? - Sorriram.
          Encantador.
(Continua)

15 de julho de 2010

AUTOR


Vezemquando bate uma vontade enorme de escrever? Escrever sem medo. Sem compaixão. Sem correr o risco de ser atropelado por um caminhão, mesmo este achando-se carregado de palavras soltas. Sem vergonha de errar o português. Sem motivos.

Um problema pode ser resolvido por palavras. Sílabas. Letras. Fonemas. Porque escrever distrai, desabafa. Sabe aquela tensão que você tem em suas costas, como naquele filme em que um espírito encontrava-se nos ombros do protagonista? Escrever também auxilia no exorcismo de espíritos. Não digo espíritos macabros que assistimos nos cinemas ou vemos na novela das seis. Refiro-me à parte imaterial do ser humano. Esta parte que, constantemente, esquecemos de aflorá-la a fim de fugir de uma possível dor de cabeça.

Assim que criam autores um blog. Sem pressão. Sem leitores. Você escreve para sentir-se confortável e, posteriormente, um leitor ou mesmo alguém sem compromisso mais sério avaliar suas ideias e admití-las ou não à sua vida social. Apenas por amar o que produz.


Agradeço, antecipadamente, aos meus possíveis leitores ou pessoas sem compromisso mais sério.

Edvar Soares.

HIPOCRISIA


A Hipocrisia do Ser

"Para que servem esses píncaros elevados da filosofia, em cima dos quais nenhum ser humano se pode colocar, e essas regras que excedem a nossa prática e as nossas forças? Vejo frequentes vezes proporem-nos modelos de vida que nem quem os propõe nem os seus auditores têm alguma esperança de seguir ou, o que é pior, desejo de o fazer. Da mesma folha de papel onde acabou de escrever uma sentença de condenação de um adultério, o juiz rasga um pedaço para enviar um bilhetinho amoroso à mulher de um colega. Aquela com quem acabais de ilicitamente dar uma cambalhota, pouco depois e na vossa própria presença, bradará contra uma similar transgressão de uma sua amiga com mais severidade que o faria Pórcia.

E há quem condene homens à morte por crimes que nem sequer considera transgressões. Quando jovem, vi um gentil-homem apresentar ao povo, com uma mão, versos de notável beleza e licenciosidade, e com outra, a mais belicosa reforma teológica de que o mundo, de há muito àquela parte, teve notícia.
Assim vão os homens. Deixa-se que as leis e os preceitos sigam o seu caminho: nós tomamos outro, não só por desregramento de costumes, mas também frequentemente por termos opiniões e juízos que lhes são contrários."


(Michel de Montaigne, in 'Ensaios - Da Vaidade')

Cansei de bancar o Universo, prender-me a uma rotina de 21h e ser o dono do mundo.


Passar bem,

Universo.

14 de julho de 2010

NUVENS


“Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.”
(Bicho de sete cabeças - Carta Anônima - Caio Fernando Abreu)

Caio consegue dar vida às palavras.

Amando,

Universo. 


13 de julho de 2010

CAFEZINHO

O Humor é capaz de perceber e apreciar o que é cômico, divertido. Até nas situações mais inusitadas, como aquela gravata cafona do seu chefe combinada ao seu bigode que insistem em olhar para você durante uma reunião, o Humor pode acompanhá-lo. Com uma forma de expressar única, o sorriso, ele traz-me um refúgio; uma apreciação da monótona vida que levo.

 Café.  Infusão de um fruto, depois de torrado e moído, a que, em geral, se adiciona um adoçante. Cor escura. Relaxa. Em excesso, tira o sono. Em dose moderada, é ótimo para o colesterol.



Contam-se uma história a qual é perceptível uma grande importância do café: sem ele, você pode ser pego!

Na fuga de dois leões (mamíferos carnívoros absolutamente belos) de um Jardim Zoológico, cada um tomou um rumo diferente. Um dos leões fugiu para as matas e o outro para o centro da cidade. Procuraram-os por toda parte, mas não os encontraram.



Um mês depois, voltou um leão magro e faminto. E, para surpresa geral, era justamente o leão que fugira para as matas. Assim, foi reconduzido à sua jaula.




Meses depois, após o esquecimento do outro leão, que fugira para o centro da cidade, o bicho foi recapturado. E voltou para sua antiga jaula no Jardim Zoológico, gordo e totalmente saudável. Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para a floresta perguntou ao colega:



- Como conseguiu esconder-se na cidade por todo esse tempo, e ainda voltar com saúde? Eu, que fugi para a mata, tive que voltar porque não encontrei nada para alimentar-me...













O outro leão explicou:

- Enchi-me de coragem, e fui esconder-me em uma repartição pública. Havia muitas pessoas. Cada dia, comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.


- E por que voltou para cá? Acabaram-se os funcionários?

- Nada disso! Funcionário público é coisa que nunca se acaba! É que eu cometi um erro gravíssimo... Já tinha comido o diretor geral, dois superintendentes, cinco adjuntos, três coordenadores, dez assessores, doze chefes de secção, quinze chefes de divisão, várias secretárias, dezenas de funcionários e ninguém deu por falta deles! Mas, no dia em que comi o infeliz que servia o cafezinho... Estraguei tudo!


Moral da história: Jamais subestime o poder de um funcionário que serve café.

Nada a ver.

Att.,

Universo.