Latest Entries »

23 de setembro de 2010

AZUL


Gosto quando ouço aquela música antiga que lembra-me de como eu era feliz no Ceará. Não me preocupava com aparência, com dinheiro ou muito menos com amores. Tinha o coração livre, ao ponto de inflar de algum ar leve e subir. Elevar-se até as cores do forte coração diluírem-se no infinito azul do céu.

Agora, aqui em um território desconhecido, não muito distante da minha terra natal, sinto que meu coração começou a estacionar. Já bateu diversas vezes em árvores lindas e edifícios esplêndidos, mas frágeis. Talvez a árvore que segura-o hoje seja grande e frondosa. Dê frutos e flores também. Muitas e muitas flores.


 Há quem diga que não existe um amor para toda a vida. Prefiro não concordar nem descordar com tal afirmação. Tenho receio de que alguma tempestade forte seja capaz de derrubar aquela vigorosa árvore. E se conseguir? E se o vento for mais forte do que imagino? Seria meu coração capaz de estacionar novamente?

Já ouvi falar em amor proibido. Aquele amor "impossível" de acontecer. Mas, apesar de toda impossibilidade, há algo mais forte e mais belo do que o amor. Algo inexplicável que te faz flutuar no azul. A amizade sempre é fundamental. Conversas e sorrisos.

É muito difícil tornar-se adulto e ter responsabilidades antes jamais imaginadas. Compromissos. Deveres.

Edvar Soares.

22 de setembro de 2010

VER-DA-DE!

Todos os olhos voltados fixamente para o movimento circular da garrafa no chão. O gargalo parece apreciar cada olhar dos assustados participantes ao redor. Perdendo a força, cada vez mais devagar. E vai parando. Pa-ran-do.


Fulano pergunta para Sicrano: "Verdade ou consequência?". Suor gelado. "Ver-da-de!". Alguns segundos silenciosos são cortados pelo som estridente da pergunta. Embora possa não ser uma pergunta constrangedora, a tensão do jogo causa certo desconforto para o questionado. Cada palavra é escutada minuciosamente pelo círculo humano. Parece até que a interrogação no final da pergunta provoca uma irritação aguda no ouvido sem motivos esclarecidos. Alívio pelo final da questão ou aflição pelo início da resposta?

Agora, aquela dificuldade antes provocada, suaviza-se. Este pega novamente a garrafa e, com toda a força feita para responder a pergunta anterior, roda-a sem lástima entre os demais. No momento do giro, os jogadores planejam a mais temida das perguntas. Aquela pergunta maliciosa e pervertida. Porém, nunca imaginam que a pior das perguntas será justamente para você. Outra vez, pa-ran-do.


Nova pergunta: "Verdade ou consequência?". Claro que ninguém responderá "Consequência!", a menos que tenha combinado anteriormente com o amigo do outro lado da garrafa para desafiá-lo a beijar a menina mais bonita do jogo. E assim, sucessivamente. Um círculo de crianças famintas por mais informações, mais medos, mais sarcasmo, mais ambiguidade, mais diversão. Um círculo vicioso em que o grande objetivo é: Ver-da-de!

Edvar Soares.

(Indicado por @fabyfalcao)

19 de setembro de 2010

BARRO



“Fico pensando se viver não será sinônimo de perguntar. A gente se debate, busca, segura o fato com duas mãos sedentas e pensa: “Achei! Achei!”, mas ele escorrega, se espatifa em mil pedaços, como um vaso de barro coberto apenas por uma leve camada de louça. A gente fica só, outra vez, e tem que começar do nada, correndo loucamente em busca dos outros vasos que vê. Cada um que surge parece o último. Mas todos são de barro, quebram-se antes que possamos reformular as perguntas. E começamos de novo, mais uma vez, dia após dia, ano após ano. Um dia a gente chega na frente do espelho e descobre: “Envelheci.” Então a busca termina. As perguntas calam no fundo da garganta, e vem a morte. Que talvez seja a grande resposta. A única”.

(Caio Fernando Abreu)

18 de setembro de 2010

RAVE


Os primeiros raios de sol atravessavam a janela de vidro entre as cortinas. Parecia um dia normal. E era um dia normal. Exceto pelo barulho de gincanas do colégio ao lado que havia invadido seu quarto. Desligou o ventilador acima de sua cabeça e, ainda aborrecido devido ao barulho, levantou-se para escovar os dentes. Assistiu aos "Simpsons". Ele adora desenhos.

Após a prima do quarto ao lado acordar, foram ambos fazer almoço. Bagunça. Pirão de carne e farinha por todo o fogão. Mas seus pais nem reclamam. (Será que porque moram sozinhos?!) O irmão chegou e foram almoçar. A tarde foi comum: conversar com amigos no computador, jogar Mário 64.


À noite, esperou alguns amigos para o encontro semanal em seu quarto. Isso, "encontro semanal", pois todo fim de semana vários de seus amigos decidem ir (de última hora ou não) para seu apartamento. Seis homens trancados dentro de um quarto com cerca de três metros quadrados de área ouvindo funk. Para ser mais exato, ouvindo "Gaiola das popozudas". Vergonha.


Bom que a prima e o irmão nem dizem nada sobre o barulho. A única advertência que fazem é para fechar a porta do quarto. Calor. Após todos arrumarem-se, saem para a noite. E a noite foi uma criança.

Rave de angolanos. Negros altos mexiam-se, aparentemente, dançado. Isso, parecia que estavam em algum filme norte-americano. Talvez um típico filme de terror, onde o assassino atuava na calada de certos aposentos do ambiente. Ou seria na abertura da Copa de 2010? Não importava. Divertiram-se, dançaram, explodiram-se. Exceto por algum idiota alcoolizado, a rave teria sido perfeita. Bebida e cachorro-quente dançavam juntos. Final: pés pedindo arrego!


Voltaram para suas respectivas casas a pé. Mas, só restaram quatro. Outros foram de ônibus às pressas (porque naquele horário é raro ver um ônibus). Mais uma semelhança a filme de terror: o sereno da noite e o silêncio dos gatos aterrorizavam as vezes. Como estavam cansados demais para pensar a respeito, foram assim mesmo.

Quatro e meia da manhã. Abriu um iogurte de morango, misturou com farinha láctea e leite em pó. Gosma. Comeu, deixou um bilhete para fazerem seu almoço no dia seguinte (ou seria daqui a pouco?) sem que o acordasse e dormiu. Sonhou que estava no filme "Avatar". 


Edvar Soares.

16 de setembro de 2010

NEBULOSA


Talvez o céu mudasse de cor constantemente. Ou seriam seus olhos negros que tudo pode ver? Pensei muito no azul celeste, no verde do oceano, no amarelo solar. Queria tudo para mim; só para mim. Por vezes sou egoista ao extremo. Quero tudo da minha maneira: os pratos colocam-se ao lado dos copos de vidro, as canetinhas são separadas dos lápis-de-cor. Uma nebulosa semelhante ao olho que tudo observa. Olho curioso, aberto, monstruoso.

Imaginar milhares de enciclopédias abertas na mesma página. O desenho de um lagarto verde abraçado a uma folha, pronto para receber os primeiros raios-de-sol em sua pele áspera e úmida. Um felino atacando um urso-marrom; uma rato engolido por uma cobra. Mil faces. Mil maneiras. Mas a única que interessa é a minha.


Talvez o mar mudasse de cor casualmente. Ou seriam suas lágrimas deslisando em minha face? Refletiu bastante ao escutar ruidos por trás da porta amarela, por cima do telhado vermelho, por dentro do coração esverdiado. Olhos baixos atentos ao menor movimento. Ele não é egoísta. Ele é solidário; apenas espera algo a receber. Ambição? Tendência natural de sobrevivência, em que o mais apto torna-se o melhor. Selva de granizo.

Edvar Soares.

14 de setembro de 2010

BANHO

12 de setembro de 2010

ROMANCE


O tempo é limitado para comparar o quanto estamos nos dando bem. Afinal, o tempo não é nada. Ou tudo. Uma sucessão de dias, horas, minutos que, quando aproximamo-nos parece uma eternidade e, ao mesmo tempo, efêmero. Eterno os olhares, os carinhos, o romance. Passageiro o tempo. Equívoco.

Acredito que durará muito, mais muito mais do que possamos imaginar. Algo inestimável. Algo que nem o tempo será capaz de compreender a distância entre os olhares. Abraços. Carinhos. Companheirismo.


Aproveitarei ao máximo desse minucioso tempo.
Três meses.
Edvar Soares.